Cimento não é tudo igual
Na engenharia diagnóstica existe a exigência em entender e apresentar as razões que levaram a determinados defeitos (falhas, vícios, anomalias) na estrutura, e em muitos casos, os problemas estão no concreto, ou melhor na falha de especificação do cimento empregado para aquele elemento da estrutura de concreto armado, que veio a apresentar o defeito.
Sendo bem específico, um concreto de fundação não pode ser o mesmo que se emprega na superestrutura.
Arnaldo Forti Battagin, gerente do laboratório da Associação Brasileira do Cimento Portland (ABCP) aponta que existem 11 tipos de cimento utilizados para a construção e cada um destes, é resultado das qualidades da matéria prima disponível na região. Então, temos diferentes tipos de cimento de acordo com a área geográfica de sua produção, e eles possuem qualidades técnicas diferentes, deve-se utilizar cada um deles para fins específicos.
Tipos e Classificação do Cimento
As embalagens do cimento apontam qual é o tipo: CP I, CP I-S, CP II-E, CP II-Z, CP II-F, CP III, CP IV, CP V, RS, BC, CPB.
CP I: Cimento Portland Comum (NBR 5.732)
Este cimento é o mais básico que está à venda no mercado. Possui uma fórmula mais simplificada, para obras que não possuam exigências específicas em relação ao tipo de cimento utilizado. O único aditivo utilizado neste tipo de produto é o gesso, cuja função é retardar a rigidez para permitir que o profissional tenha mais tempo para a aplicação. É um cimento de baixa resistência e é mais utilizado para a área da indústria.
CP II-S Cimento Portland tipo Comum com Aditivo (NBR 11.578)
Este tipo de cimento possui uma composição bastante semelhante à do citado anteriormente. A única diferença está no fato de que o CP II-S possui aditivo pozolânico, o que proporciona menor permeabilidade ao produto.
CP II-E Cimento Portland Aditivado com Escória de Alto Forno (NBR 11.578)
O cimento CP II-E é considerado um produto intermediário entre os modelos Comum e Aditivado. Seu uso se dá principalmente em obras nas quais seja requerida uma liberação de calor razoavelmente lenta. A escória de alto forno presente na composição deste cimento garante a ele menor calor para hidratação. Por isso, ele libera menos calor quando é colocado em contato com água.
CP II-Z Cimento Aditivado Pozolânico (NBR 11.578)
Este cimento, assim como o modelo CP II-S, tem adição de pozolana em sua fórmula, mas em um índice maior, garantindo uma melhor impermeabilidade. Graças a esta característica, este cimento é o mais recomendado para uso em obras subterrâneas com alta umidade ou contato direto com a água.
CP II-F Cimento Aditivado de Material Carbonático – filer (NBR 11.578)
É um dos modelos mais eficientes para uso em aplicações de obras simples, mas que exigem resistência, como concreto, concreto armado, concreto protendido, pré-moldados, pavimentos e pisos de concreto. Em sua fórmula há uma concentração de filer carbonático em índices de 6% a 10%.
CP III – Cimento de Alto Forno (NBR 5.735)
Este cimento tem como principais características o baixo calor de hidratação, alta durabilidade e impermeabilidade, uma boa resistência às variações de temperatura (expansão e contração), além de resistência a materiais à base de sulfato. Tem em sua composição de 35% a 70% de escória de alto-forno. Dada as suas características de resistência aos mais diversos ambientes, este cimento é altamente recomendável para obras com grande agressividade – barragens, pontes, esgotos, fundação para máquinas, afluentes de esgoto, ou ainda obras mais simples e genéricas.
CP IV Cimento Pozolânico (NBR 5.736)
Assim como seus outros dois “primos” aditivados, o CP IV tem maior índice de pozolana (cinzas) em sua fórmula, variando entre 15% e 50%. Como há muita pozolana em sua composição, a impermeabilidade é alta e a durabilidade é amplificada. Tem boa resistência a ambientes ácidos e contato com sulfato. É indicado também para obras com água corrente, uma vez que apresenta baixa porosidade. Possui baixo calor de hidratação, o que o torna bastante recomendável na concretagem de grandes volumes e sob temperaturas elevadas.
CP V ARI (NBR 5.733) ou Cimento Portland de Alta Resistência Inicial
Cimento semelhante ao comum (não possui aditivos), e seu método de fabricação dosa a argila e o calcário de forma diferenciada, com moagem fina. Graças às suas características físicas, ele adquire secagem rápida – e é um modelo ótimo para a fabricação de concreto. É muito utilizado em obras indústriais que exigem um tempo de desforma menor. É recomendado apenas para a fabricação de concretos.
RS (NBR 5.737) Cimento com Resistência a Sulfato
Os cimentos RS têm várias fórmulas de fabricação que variam de marca para marca. Mas os produtos enquadrados nesta divisão têm como característica principal a resistência a sulfatos, o que permite que sejam usados de maneira proveitosa em redes de esgoto, ambientes indústriais e água do mar.
BC Cimento com Baixo Calor de Hidratação
Este cimento é utilizado principalmente em construções de grande consumo de concreto, e retardam o desprendimento de calor em peças de grande massa, evitando o aparecimento de fissuras (de origem térmica), devido ao calor desenvolvido durante a hidratação do cimento.
CB Cimento Branco
Este cimento é fabricado com caulim ao invés da argila. Isto garante uma coloração branca, e seu principal uso está associado ao rejuntamento de peças cerâmicas. Como é branco, pode ser customizado de acordo com as necessidades da obra, e também é comercializado em outras cores, porém colorizado ou queimado.
Cimento Portland Branco (CPB) (NBR 12.989)
Também tem a cor branca, tem finalidade estrutural, e é indicado para fins arquitetônicos. Seu material é obtido em razão de matérias-primas com baixo teor de manganês e ferro e utilização do caulim no lugar da argila.
Aplicabilidade do cimento
Os diferentes tipos de cimento possuem aplicações específicas de acordo com sua composição, resistência e norma técnica.
O CP I (cimento comum, NBR 5.732, resistência de 25 MPa) e o CP I-S (com pozolana, NBR 5.732, resistência de 25 MPa) são usados principalmente em argamassas de revestimento e assentamento de tijolos ou blocos, além de concreto simples, sem armadura.
O CP II-E, CP II-Z e CP II-F (compostos, NBR 11.578, resistências de 25, 32 e 40 MPa) apresentam maior versatilidade. São aplicados em argamassas de assentamento de azulejos e ladrilhos, concretos simples e magros, concreto armado estrutural, protendido (tanto antes quanto após o endurecimento), concreto para desforma rápida (curado por aspersão ou a vapor), elementos pré-moldados, pavimentos de concreto simples ou armado, pisos indústriais, solo-cimento e concretos com agregados reativos.
O CP III (cimento de alto-forno, NBR 5.735, resistências de 25, 32 e 40 MPa) também é bastante utilizado em revestimentos, concretos simples e magros, estruturas armadas e protendidas, além de aplicações em meios agressivos, como obras expostas à água do mar e esgotos, e em concreto-massa.
Já o CP IV (cimento pozolânico, NBR 5.736, resistências de 25 e 32 MPa) apresenta características semelhantes ao CP III, sendo indicado para argamassas de revestimento, concretos simples, magros, armados, protendidos, elementos pré-moldados, pavimentos, pisos indústriais, obras em meios agressivos e concreto-massa.
O CP V-ARI (cimento de alta resistência inicial, NBR 5.733) é empregado em concretos estruturais que exigem protensão, desforma rápida (curado por aspersão ou a vapor), pisos indústriais e elementos pré-moldados.
O RS (cimento resistente a sulfatos, NBR 5.737) é indicado especialmente para ambientes agressivos, como contato com água do mar ou esgoto, além de ser usado em concreto-massa.
O BC (cimento de baixo calor de hidratação, NBR 13.116) tem aplicação em concretos de grande porte, como barragens e estruturas de grande volume, devido à sua baixa liberação de calor na hidratação.
O CPB (cimento branco estrutural, NBR 12.989) é mais restrito, sendo utilizado em argamassas de rejuntamento e em concreto arquitetônico, quando a estética é um fator determinante.
É importante destacar que existe o cimento branco não estrutural, usado comumente em rejuntes de cerâmica, que é um produto distinto do cimento branco estrutural previsto nas normas técnicas.
Quando comparamos os tipos de Cimento Portland, observamos variações significativas nas propriedades que influenciam o desempenho do concreto e da argamassa. O cimento comum e composto apresenta comportamento padrão em termos de resistência à compressão, calor de hidratação, impermeabilidade, durabilidade e resistência a agentes agressivos.
O cimento de alto-forno e o cimento pozolânico têm menor resistência nos primeiros dias, mas alcançam valores superiores ao final da cura. Além disso, ambos geram menor calor na reação com a água, apresentam maior impermeabilidade, maior durabilidade e são mais resistentes à ação de ambientes agressivos, como contato com água do mar ou esgotos.
Já o cimento de alta resistência inicial se diferencia por proporcionar resistência muito maior nos primeiros dias, sendo indicado para obras que necessitam de desforma rápida. Entretanto, sua resistência a ambientes agressivos é menor e o calor de hidratação em maior.
O cimento resistente aos sulfatos é especialmente adequado para ambientes agressivos, apresentando alta durabilidade e resistência química, mas com desempenho padrão em outras propriedades.
O cimento branco estrutural tem comportamento semelhante ao comum, mas se destaca pela estética em projetos arquitetônicos, apresentando padrão de resistência, impermeabilidade e durabilidade, porém com maior calor liberado na reação de hidratação e menor resistência a agentes agressivos.
Por fim, o cimento de baixo calor de hidratação libera menos calor durante a cura, o que o torna adequado para concretos de grande volume, como em barragens. Sua resistência inicial é menor, mas ao final da cura atinge valores padrão, além de oferecer maior durabilidade e maior resistência a ambientes agressivos.
Assim, cada tipo de cimento deve ser escolhido conforme a exigência técnica da obra, equilibrando resistência, durabilidade, resistência química, calor de hidratação e até mesmo estética.
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